domingo, 19 de fevereiro de 2017

O grande problema chama-se capitalismo e não globalização

Há quem considere que a globalização tem de ser cavalgada pelo capitalismo e quem entenda que o nacionalismo deve substituir a globalização, aceitando o capitalismo. Duas vias, um só vencedor, o capital

                                                    Texto: Vítor Lima, Economista · 17 Fevereiro, 2017


A globalização é um longo processo no âmbito do qual se vem construindo a Humanidade. A Terra só se tornou conhecida nos seus principais contornos, com a integração das Américas, da Austrália e das ilhas do Pacífico, a que ficaram ligados os nomes de Colombo, Gama, Magalhães… O estabelecimento de rotas marítimas consolidou e densificou as relações comerciais, as trocas culturais, a miscigenação, sem que se deva esquecer o conspurco constituído por guerras, saques, lutas religiosas, escravatura, genocídios.

Enquanto essa globalização acelerava, a China e o Japão fechavam as suas fronteiras, num encerramento nacionalista que só lhes viria a trazer atraso e humilhação.

A China, que no século XV tinha condições técnicas para praticar um caminho marítimo para a Europa, fechou-se sobre si mesma, queimando os seus enormes navios de 2000 t, muito antes da construção dos galeões europeus, que no século XVII se ficavam ainda por 600 t.

Muito cobiçada, a China, foi retalhada em zonas de influência, ocupada, destruída em guerras que só terminaram com o triunfo de Mao em 1949. O Japão, por seu turno, só saiu do seu isolamento perante a ameaça dos canhões do almirante Perry em 1854. Ainda que com formas e em tempos históricos diversos, aprenderam rapidamente as vantagens do capitalismo, sobre a ruralidade e o feudalismo, cavalgando a globalização. Hoje, com outros países da sua área geográfica, vão mostrando a nova centralidade política e económica do planeta – no Pacífico Ocidental ou na Ásia Oriental, como se prefira, tendo em conta que o planeta é redondo.

Essa nova escala tornou obsoleta a ordem feudal, os seus ducados e condados, tal como arruinou as cidades-estado italianas baseadas no comércio mediterrânico e na finança. Daí resultou que a Alemanha e a Itália só tenham surgido como estados e actores na concorrência inter-imperialista, muito depois de a Inglaterra e a França terem repartido o mundo entre si; tendo decorrido daquele atraso, ambições territoriais que originaram duas guerras mundiais.

Enquanto se extinguiam impérios, relicários históricos como o império Austro-Húngaro, ou o Otomano, entrava-se numa era em que a expressão “a cada povo o seu estado” correspondia aos desejos de cada burguesia de se considerar dona de um território – qual herdeira dos antigos senhores feudais – com direitos de exploração, em exclusividade, dos seus recursos; e sobretudo, do trabalho desenvolvido pela sua população, em disputa constante com os vizinhos.

As nações colonizadas – “não civilizadas” – iriam ficar ainda durante algumas décadas fora desses direitos de autonomia, uma vez inseridas na concorrência inter-estatal, inter-imperialista, entre os vários capitalismos nacionais globalizados.

A globalização é um processo de aproximação dos povos, anterior ao capitalismo que, sem dúvida a aprofundou e estendeu. Os limites inerentes ao capitalismo na sua versão neoliberal, hoje dominante, são conhecidos – concentração dos capitais na área financeira, captura de pessoas e estados através da dívida, emagrecimento de rendimentos do trabalho e dos direitos, baixo crescimento (esse fetiche do capitalismo), abandono de grande parte da Humanidade na doença e na inanição, menosprezo pelos efeitos colaterais da produção e circulação, no ambiente e na cadeia alimentar, subaproveitamento das tecnologias e dos conhecimentos existentes, mercantilização das vidas…

Hoje, politicamente, a hierarquia do capital é determinada pelo capital financeiro e pelas multinacionais que dirigem a acção das classes políticas nacionais, regionais ou globais no sentido da “gestão dos recursos humanos” através de um placebo denominado democracia representativa, da administração dos fundos da punção fiscal, com a submersão das pessoas em enormes caudais de informação enviesada e cascatas de dívida.

Hoje, os estados nacionais, na sua grande maioria, têm a soberania restringida ao uso do hino e da bandeira, uma vez que as ciosas burguesias nacionais, que outrora se acantonavam nos seus territórios, foram substancialmente substituídas pelas redes globais de negócios das multinacionais, que integraram os recursos dos estados-nação, deixando aos capitalistas locais os negócios paroquiais.

Perante esta situação em que a globalização tem sido aproveitada e ampliada pela lógica do capital, há dois caminhos que se podem apontar como alternativos:

Um desses caminhos é o do romântico retorno aos nacionalismos que enformaram as entidades estatais até à II Guerra, na Europa; ou, até ao final dos anos 60, no caso dos antigos espaços coloniais, na sequência da descolonização. Os seus defensores de hoje acreditam em medidas keynesianas, ancoradas em gastos públicos, de difícil concretização dadas as limitações de rendimentos de populações empobrecidas e porque a produção é segmentada e distribuída por vários territórios, só globalmente tendo coerência. O retorno a uma moeda própria é uma via rápida para a inflação, a exigir a repressão adequada, protagonizada por sindicatos domesticados, numa política com efeitos semelhantes à actual “desvalorização interna”.Essa deriva nacionalista, fixando-se numa maior relevância das fronteiras, facilmente se torna xenófoba à medida que as dificuldades se desenvolvem; e, o patriotismo facilmente se torna fascismo, como se assistiu na conjuntura autárcica dos anos 30.Por outro lado, como reconstruir estados-nação, cujas principais estruturas económicas fazem parte das redes multinacionais e onde as burguesias autóctones pouco mais são do que conjuntos de empresas descapitalizadas perante populações de escasso poder de compra? Finalmente, em todas as derivas nacionalistas, de direita ou de “esquerda” aponta-se a globalização como causa de todos os males, admitindo-se implicitamente que o capitalismo deve continuar desde que reforçado por nacionalizações… desde que não atingissem o capital estrangeiro, como aliás se observou em Portugal, em 1975.

Um segundo caminho consiste na superação do capitalismo, necessária quando os próprios bancos centrais reconhecem não terem formas de superar a próxima crise financeira, como conseguiram depois de 2008. Se a dívida global cresce em ritmos claramente superiores ao aumento do PIB e se os rendimentos das populações de muitos países são anémicos, a solução terá de passar por um enorme encolhimento do capital financeiro, em contrapartida da anulação de muita dessa dívida, matematicamente impagável.

Diante deste cenário de alta probabilidade deve ter-se em conta:

a) Que não há uma narrativa anticapitalista atualizada e popular, democrática e crítica das sociedades de trabalho, sobrando no terreno, as velhas lógicas autoritárias, burocráticas, crentes no crescimento do PIB, comuns nas margens esquerdas dos regimes parlamentares. Sendo marginal aquela narrativa e perante a crise social que se vive, desenvolvem-se lógicas nacionalistas, xenófobas e fascistas susceptíveis de grande apoio eleitoral, de onde vão saindo Brexits, Trumps ou Le Pens, pobreza e guerra.

b) Qualquer narrativa anticapitalista não pode recusar a unidade da espécie humana, acelerada pelo capitalismo nas últimas décadas e, pelo contrário, deve responder à unidade do capital com a unidade da multidão de trabalhadores, ex-trabalhadores e marginalizados, independentemente do local de nascimento, da nacionalidade, da “raça”, da confissão religiosa, do género.

Essa unidade, há cem anos tinha um nome, entretanto esquecido – internacionalismo; e, certamente não se cimentará através de ditaduras do proletariado mas, com a criação de redes rizomáticas de cariz local/regional actuando de modo concertado e solidário e decisão radicalmente democrática.


Este e outros textos em:




sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Um internacionalismo do século XXI, contra o capitalismo e o nacionalismo (1)



Carlos Taibo sintetiza a questão que se nos coloca, hoje. Ou ganhamos a consciência de que temos de sair urgentemente do capitalismo, regressando a lógicas de cooperação, solidariedade e apoio mútuo; ou entra-se num caminho de salve-se quem puder, com guerras, pobreza acentuada, desdém para com as alterações climáticas, com regimes fascistas e genocidas.
Sumário
1 - Uma (des)ordem económica e política
2  - A globalização é um processo
2.1 - Como o capitalismo vem cavalgando a globalização
2.2 - A instituição de um estado de excepção generalizado
3 - Os grandes promotores do desastre
3.1  - As ameaças vindas das classes políticas
4 – A leitura do contexto.
4.1 - As alternativas possíveis e as desejáveis
4.2 – O desenvolvimento do espirito do fascismo
4.3 – Um novo internacionalismo, precisa-se!

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Economia, capitalismo e revolta (conclusão)



1 - O que é a economia?*
2 - Os economicistas, os escribas do capitalismo*
3 - O mercado e a irrelevância de quem trabalha*
4 - Globalização e mercantilização
5 - Estado e hierarquia
6 - Ideias para uma saída “disto”


sábado, 14 de janeiro de 2017

Como o sistema financeiro captura a Humanidade através da dívida (concl)



Uma captura é uma forma de violência. Uma dívida baseada na violência é ilegítima, mesmo que aceite pelas classes políticas, onde coabitam corruptos e distraídos. Só quanto a produtos derivados criados pelo sistema financeiro cabe a cada ser humano $ 125000; e, mesmo se se contentassem com juros na ordem dos 3%, cada ser humano, em média teria de contribuir, por ano com $ 3750 para a engorda do capital financeiro.

Sumário
4 – Ilegitimidade relativa aos meios de constituição de dívida
5 - A insustentabilidade da dívida
   5.1 – A insustentabilidade da dívida portuguesa

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Como o sistema financeiro captura a Humanidade através da dívida (2)



A dívida imputada pelo sistema financeiro e pela classe política não é nossa. É ilegítima porque dela nada resulta a favor do povo e aceitá-la é legalizar o roubo do nosso futuro.

Sumário
0 – Introdução
1 – A livre vontade das partes
2 - Uma ilegitimidade política originária
3 – Uma ilegitimidade quanto ao objetivo
   3.1 – Ocultação, a mãe de todas as burlas
   3.2 – Condições para a avaliação da legitimidade


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Como o sistema financeiro captura a Humanidade através da dívida



A dívida, ao tornar-se perpétua constitui uma renda que alimenta o parasitismo capitalista. Quer seja aquela que subscrevemos, quer seja aquela que a classe política nos endossa com o rótulo de dívida pública, por encomenda do sistema financeiro.

Sumário
1 - Da moeda até à dívida e o papel do Estado
2 - Como se constrói a dívida e a sua mansa aceitação
3 - O capitalismo existe, convém não esquecer
4 – O papel dos Estados na engorda do sistema financeiro

sábado, 19 de novembro de 2016

A dívida como troca



Autora: Rosário Caetano
 

Os sacrifícios e jogos que se celebravam nos locais funerários como festas dos mortos produziram finalmente a forma secularizada da religião: a sociedade de trocas.”



Horst Kurnitzky, Estrutura libidinal do dinheiro

Regimes de troca




Se não houvesse troca, não haveria comunidade.” (Aristóteles, Política, 1133b) Os indivíduos sempre trocaram coisas entre si, sempre pediram e ficaram a dever coisas uns aos outros. Se alguém receber alguma coisa do seu vizinho, ao aceitá-la, fica em dívida. Em abono desse vizinho, pagará essa dívida com uma “palavrinha” (o tal “obrigado”) e com outro presente, devolvendo o estado de dívida à outra parte. O objetivo final não é o pagamento total das dívidas, mas sim fortalecer as relações sociais através de um sistema de crédito - dívida e obrigação - baseado na confiança e nos valores da sociabilidade em geral.


sábado, 5 de novembro de 2016

Reestruturar a dívida pública nada resolve na nossa vida



Recentemente, falou-se na Assembleia da República em reestruturação da dívida pública.

No habitual discurso tecnocrático sobre o assunto por parte da classe política, tenta-se manter a plebe ensopada em refrescos gelados carregados de açúcar. Uns defendem o “pagamos obedientemente”[1]; outros preferem um “pagamos obedientemente mas agradecemos uma atençãozinha”[2]

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Economia, capitalismo e revolta – 1



O discurso dominante é economicista, tecnocrático. Fala de competitividade, empregabilidade, PIB, baixos salários e mercado. É altura de se falar de economia política.

1 - O que é a economia?
2 - Os economicistas, os escribas do capitalismo
3 - O mercado e a irrelevância de quem trabalha

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

Mais um PERDÃO FISCAL. PERES é a sua graça

As dívidas ao Fisco e à Segurança Social, bem como as esfarrapadas medidas regularizadoras que não resolvem coisa alguma, evidenciam o fracasso de um capitalismo periférico e do regime político cleptocrático que o acompanha.

1 - Trapaças e vigarices tantas vezes repetida deixam de o ser?
2 – O fracasso está garantido
3 - Uma instalada cultura de burla

Já se tornou rotina a ideia de planos de regularização de dívidas ao Fisco e à Segurança Social que incluem perdões [1] . Desta vez é o PERES, há 20 anos foi o Mateus e antes um Catroga; no partido-estado apreciam-se estes nomes, a mimetizar operações militares, para assustar embora não passem de momices. A insistência regular nestes planos é um atestado do seu rotineiro fracasso; e, sobretudo, revela a continuidade das condições socioeconómicas que alimentam a formação daquelas dívidas. Com ou sem crise, com ou sem troika.